Uma coisa é saber que as dificuldades vão aparecer em algum momento, avisar e escutar sobre os infortúnios da vida. Outra coisa completamente diferente é efetivamente passar pelo período em que os problemas somam preocupações. É diferente viver o olho do furacão a apenas projetá-lo, esperá-lo ou o que quer que seja. E, agora, a maré subiu de verdade. A Gabriel Bortoleto, pelo momento, vale aprender a boiar.
É um exemplo que vale também para o público, claro, imediatista pela longa espera e ávido por um piloto brasileiro vencedor. Mas vencedor agora, não vencedor talvez um dia no futuro. Mesmo assim, a sustentação que o público brasileiro tem oferecido a Gabriel até agora é até maior que o esperado. E, também, já falamos sobre o público. É hora de falar um pouco mais sobre o piloto.
Não é difícil colocar a realidade atual em paralelo ao que fez nos últimos dois anos. Chegar, acostumar com o carro e o grid, tirar o que era possível, gerenciar quando abria vantagem e ser campeão. Conquistar os olhos e ouvidos de todo o carrossel da F1 como um dos grandes nomes, ou o grande nome, entre os jovens pilotos. Ser visto como estrela do futuro, com um adesivo dourado na agenda das equipes.
A vida, entretanto, é totalmente diferente na F1. É evidente e natural que assim seja, sobretudo quando você tem nas mãos um carro sabidamente ruim. O pior carro do grid para começar a temporada e como deve ser ao longo de todo o ano — ou, ao menos, realidade da esmagadora maioria de 2025. E a comparação aos outros novatos também pode causar efeito rebote. Andrea Kimi Antonelli, Oliver Bearman e Isack Hadjar todos já viveram momentos que impressionaram o paddock e receberam enxurrada de elogios. Bortoleto, não. Por outro lado, Gabriel é o único que só tem o carro da Sauber.

“Não é fácil. Você vem de dois campeonatos ganhando e, agora, chegar ao Q2 já é um grande trabalho para nós”, disse enquanto ainda estava em Jedá. “Se lembrar do início de George Russell na F1, ele não marcou nenhum ponto e, agora, briga constantemente por pódios e objetivos grandes. Preciso aprender e melhorar”, completou.
A situação piorou na última sequência de três corridas. Nas duas primeiras provas do ano, Bortoleto mostrou que alguma coisa era possível. Classificou bem na Austrália, teve boa posição também sobretudo na classificação curta da China, indo ao Q2 ambas as vezes. Apesar de delizes aqui e acolá, ainda mostrou bom ritmo de prova sobretudo em Xangai. O companheiro de equipe, experiente Nico Hülkenberg, aproveitou o caos da chuva na Austrália e até marcou pontos. A Sauber podia estar atrás, mas conseguia fazer parte do pelotão.
Nas últimas três corridas, a situação se complicou. Nenhum dos dois, Bortoleto ou Hülkenberg, conseguiu sair do Q1 em classificação ou aproximar de um ponto. Nico tem levado grande vantagem, porém, dentro das realidades. Não é algo que causar desespero, visto que se trata de um piloto com uma década e meia de experiência, mas um sinal que permite ao menos um alerta: mantenha a cabeça no lugar.
São só três corridas num universo interminável, nada muito drástico. Nem se trata de uma afirmação de que Bortoleto tirou a cabeça do lugar ou que vá tirar ou que faça ou deixe de fazer qualquer coisa. É, realmente, um alerta: é preciso respirar com tranquilidade e entender de maneira simbiótica os limites do carro e onde é possível aumentá-los. Não tentar guiar mais do que o carro tem, o que geralmente leva a um caminho de erros, batidas e frustrações.

“Vimos no ano passado com a Sauber também — eles estavam basicamente em último o ano todo e, com uma ou duas atualizações, voltaram a brigar por Q3. Então, aprendi que tudo pode acontecer nesse mundo. Não podemos desistir. Agora, precisamos apontar a equipe na direção certa no desenvolvimento do carro”, comentou. Seguir nessa linha é o correto, mas é mais fácil falar do que fazer quando o furacão te sacode loucamente em todas as direções.
E agora vem Miami, uma pista que não conhece e em fim de semana de corrida sprint. “Todo o evento sempre parece impressionante na TV, e estou animado para experimentá-lo pela primeira vez. Passei algum tempo no simulador depois de Jedá para entender melhor o circuito e estou ansioso para andar nele de verdade”, falou.
Não há muito a analisar por enquanto, mas há a observar. A maré subiu e a corrente ganhou poder na última tripleta, e Bortoleto está no olho do furacão. É mais fácil pedir calma do que mantê-la, mas é assim que as coisas estão.
O tempo de nadar vai chegar, mas por enquanto é hora de aprender a boiar.
A Fórmula 1 volta neste fim de semana, entre os dias 2 a 4 de maio, em Miami, primeira corrida da temporada 2025 nos Estados Unidos.
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