“Não encontro as palavras certas para isso”. A desoladora declaração é de Max Verstappen após a corrida inaugural da Fórmula 1 em 2026, na Austrália, que viu também a introdução de um novo regulamento. A verdade é que a percepção de um melhores pilotos do grid traduz com perfeição não só o esquisitíssimo passo técnico dado pelo Mundial, mas também o fato de que a revolução nas regras afastou a maior categoria do esporte a motor da sua essência. Quando uma temporada começa com mais preocupações do que expectativas por rivalidades e ordem de forças, é porque há algo errado. E foi basicamente o que aconteceu em Melbourne, apesar do que diz o resultado final — vitória tranquila da Mercedes, com George Russell puxando a dobradinha com Kimi Antonelli. Charles Leclerc ainda completou o pódio com a Ferrari.

Antes de mais nada, é importante ponderar que havia uma enorme inquietação com relação ao trabalho dos novos motores, uma vez que a parte híbrida passou a responder por 50% da potência — um dos pontos mais sensíveis das regras, inclusive. Porque há uma exigência constante de carregar e recarregar a bateria ao longo das voltas, para que seja possível largar, atacar e se defender dos rivais. O gerenciamento da energia virou um mantra e acabou também por alterar a pilotagem. E é exatamente essa drástica mudança que chama a atenção e parece tirar dos astros do grid o prazer de alcançar o limite ao guiar um F1. Um contrassenso, portanto.

Apesar de o Mundial ter se apressado e celebrado o aumento considerável no número de ultrapassagens da prova australiana, não deixou de ser constrangedor notar o comportamento pouco convencional do perde e ganha de performance dos carros durante as 58 voltas no Albert Park. Foi absolutamente ridículo perceber as diferenças de ritmo e a queda acentuada de velocidade antes mesmo do fim das retas, por conta da necessidade de equilibrar e se adaptar ao recarregamento da energia. Diante disso, o piloto precisa tirar o pé do acelerador muito antes de começar a frear. O que por si só já vai contra a premissa do esporte.

E os novos recursos, como modo de ultrapassagem e boost, consomem muito da bateria ao mesmo tempo em que fornecem mais ação na briga com os oponentes. Mas há uma questão: o competidor que vem atrás em uma disputa também tem dificuldade em entender se o adversário está ou não em potência máxima, arriscando uma perda repentina de desempenho. Ou seja, o piloto não tem como se defender. Vale destacar que a potência máxima do motor pode alcançar cerca de 1.000 cv, mas pode perder até 470 cv no recarregamento do sistema híbrido.

Ainda, embora tenha sido surpreendentemente divertido seguir os dez giros iniciais do GP da Austrália, no troca-troca de posições na liderança e entre os primeiros colocados antes da corrida assentar, também foi espantoso entender que esse cenário não surgiu por meio de uma tocada mais agressiva em que um piloto tentou frear o mais tarde possível ou foi capaz de colocar o carro em um ponto de difícil defesa do adversário. Quer dizer, a habilidade, a coragem e o talento acabaram dando lugar a uma melhor gestão da bateria. A situação também ganha contornos contraditórios quando se olha para a largada em Melbourne.

Leclerc engole rivais e salta de 4º para 1º na largada do GP da Austrália (Vídeo: Reprodução/ESPN)

Por conta da administração da parte híbrida, muita gente teve problema para sair do lugar, caso da dupla da primeira fila, Russell e Antonelli, mas houve quem precisou dar seus pulinhos para se livrar de um acidente mais sério, como Franco Colapinto, que evitou com maestria uma batida em Liam Lawson. Isso porque a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) promoveu ajustes no procedimento de largada, mas obviamente ainda não parece tão seguro.

“É um caos artificial”, decretou o campeão vigente, Lando Norris. “Pode acontecer um grande acidente. Nós somos os que ficam esperando que algo aconteça e que algo dê muito errado, e essa não é uma situação agradável. Dependendo do que as pessoas fazem, você pode ter uma diferença de velocidade de 30, 40, 50 km/h, e quando alguém bate em outra pessoa nessa velocidade, você vai voar, vai passar por cima da cerca e pode se machucar muito, e talvez machucar outras pessoas também. E isso é uma coisa horrível de se pensar”, alertou.

Andrea Stella, chefão da McLaren, foi na mesma linha do inglês. “É um pouco artificial. Quando o ritmo se estabiliza e todos estão seguindo o mesmo padrão em termos de gerenciamento, acho que ultrapassar se torna difícil. Portanto, acredito que mesmo do ponto de vista das ultrapassagens, isso é algo que precisamos continuar avaliando.”

Colapinto se esquiva de Lawson e evita acidente em largada (Vídeo: Reprodução/F1TV)

De fato, ainda que o GP da Austrália tenha, no fim das contas, terminado sem grandes abalos e com a impressão de que há uma batalha entre Mercedes e Ferrari, com uma distância considerável para McLaren e Red Bull, o novo conjunto de regras vai precisar de ajustes — talvez na proporção entre o motor de combustão interna e a parte híbrida, bem como do protocolo de largada. Mas é isso, não há nada que possa ser feito do ponto de vista geral do regulamento. A F1 vai mesmo viver sob essa nova e esquisita era, só não dá para fingir que foi um sucesso imediato e, principalmente, abafar as críticas de quem está pilotando esses carros.

“Espero que ainda este ano possamos encontrar algumas soluções diferentes para que se torne mais agradável para todos. Adoro corridas, mas a gente tem um limite. Eles estão dispostos a ouvir, a FIA e a F1, só espero que haja alguma ação. Não sou o único a dizer isso, muita gente diz. Sejam pilotos ou fãs, não criticamos só por criticar, criticamos por um motivo”, cravou o tetracampeão da Red Bull.

“Queremos que seja Fórmula 1, Fórmula 1 de verdade, turbinada. Hoje, claro, mais uma vez não foi o caso.”

Não dá para discordar.

Após a abertura da temporada, equipes e pilotos da Fórmula 1 voltam à disputa entre os dias 13 e 15 de março, com o GP da China. A prova será disputada no Circuito de Xangai, com cobertura completa do GRANDE PRÊMIO.

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