Foi em 28 de maio de 2006 que a Indy 500 viveu um dos desfechos mais icônicos e impressionantes de sua história. Se recuperando de um erro bizarro nos boxes, Sam Hornish Jr. acabou com a festa do novato sensação Marco Andretti, de apenas 19 anos, para estampar o rosto no troféu Borg-Warner para a eternidade.

Em 2006, a Indy vivia um ano de transição e rivalidades ferrenhas entre Penske, Ganassi e Andretti Green. Atual vencedor da Indy 500, Dan Wheldon havia trocado a Andretti pelo time de Chip Ganassi. Enquanto isso, Sam Hornish Jr., o bicho-papão os ovais e bicampeão, chegava a maio como um dos favoritos, mesmo com a lacuna de jamais ter vencido em Indianápolis anteriormente, batendo em quatro das seis participações que teve.

Do outro lado, uma das famílias mais tradicionais do automobilismo americano tentava, mais uma vez, exorcizar seus demônios. Michael Andretti abandonou a aposentadoria unicamente para correr ao lado do filho, Marco Andretti, de apenas 19 anos e que estreava em Indianápolis. A expectativa era de encerrar a “maldição dos Andretti”, já que mesmo emplacando tantos pilotos na história, a única vitória veio com o patriarca Mario, em 1969.

Durante todo o mês de maio, Hornish Jr. foi o homem a ser batido. O piloto Penske #6 vermelho e branco dominou quase todas as sessões de treinos livres e cravou a pole-position com uma média de velocidade. avassaladora de 228,985 mph (cerca de 368,5 km/h). fechando uma primeira fila com o companheiro de equipe Hélio Castroneves e o rival Dan Wheldon. Marco surpreendeu na primeira participação, largando da nona posição, à frente do pai, que saiu em 13º.

A primeira fila da Indy 500 2006 (Foto: Indycar)

No domingo, sob um calor de 32°C que castigava os pneus e as turbinas dos motores Honda, a bandeira verde deu início a 90ª edição da corrida. Wheldon logo mostrou suas garras, assumindo a ponta e dominando impressionantes 148 das 200 voltas da prova. A corrida parecia sob controle do britânico da Ganassi, enquanto Castroneves viu o muro na volta 109, abandonando em Indianápolis pela primeira vez.

O destino da prova começou a mudar drasticamente na volta 150. Sob bandeira amarela, os líderes foram aos boxes para o reabastecimento. Na ânsia de devolver seu piloto na liderança, o lendário chefe Roger Penske cometeu um erro raríssimo: gritou “Go! Go! Go!” no rádio de Hornish Jr. antes que o bocal de combustível fosse completamente desconectado.

O carro #6 arrancou arrastando a mangueira, derrubou um dos mecânicos no chão e causou pânico no pit-lane. Penalizado pela direção de prova, Hornish teve de cumprir um drive-through assim que a bandeira verde apareceu no giro 163. O pole-position despencou para o fim do top-10, aparentemente fora da briga pelo Borg Warner.

“Foi um erro completamente meu”, admitiu um raramente desestabilizado Roger Penske mais tarde. Mas o time deu a volta por cima. Em um golpe de mestre tático sob a amarela, a Penske chamou Hornish para abastecer até a boca antes de cumprir a punição. Com o tanque cheio e sem precisar economizar combustível, o piloto pôde utilizar o mapeamento mais rico do motor para iniciar uma remontada.

Marco Andretti (Foto: Indycar)

Com menos de 10 voltas para o fim, uma bandeira amarela veio após Felipe Giaffone bater no muro na saída da curva 2. O brasileiro Tony Kanaan era o líder, mas após os pit-stops, viu Michael Andretti assumir a ponta, com Michael em segundo, Scott Dixon em terceiro e Sam Hornish em quarto.

Após a relargada e com 4 voltas para o fim, o jovem Marco não tomou conhecimento do próprio pai e entrou por fora na curva 1 de forma espetacular para assumir a liderança e colocar uma mão na histórica taça Borg-Warner, levantando as arquibancadas do Speedway e aumentando a expectativa pelo fim da “maldição” da família, que não vencia em Indianápolis desde 1969.

Hornish Jr. tinha outros planos. Na volta 198, ele despachou Michael e partiu à caça do garoto. Na abertura da penúltima volta, Sam colou na traseira de Marco e tentou o bote por dentro na curva 3. O novato fechou a porta de forma agressiva. Sam precisou tirar o pé para evitar o desastre, perdeu velocidade e viu a margem do rival subir para mais de dez carros de distância.

Hornish Jr. não se entregou. Ele desenhou as curvas 1 e 2 da última volta com perfeição cirúrgica, aproveitando cada centímetro de pista limpa. Na gigantesca reta oposta, a força do vácuo começou a puxar a Penske #6 em direção à Andretti Green #26. Sam contornou as curvas 3 e 4 grudado na asa traseira de Marco. O veterano colocou de lado na lendária reta dos boxes em uma manobra clássica de slingshot, ele rasgou a pista pelo lado de fora e cruzou a linha de chegada a meros 140 metros da bandeira quadriculada, batendo Marco Andretti por inacreditáveis 0s0635, a segunda chegada mais apertada da história de Indianápolis até então, atrás apenas do triunfo de Al Unser Jr sobre Scott Goodyear em 1992.

A vitória nas 500 Milhas de Indianápolis iniciou a arrancada de Hornish rumo ao tricampeonato da IndyCar, conquistado no fim da temporada no desempate em cima de Dan Wheldon. Marco venceria na Indy pela primeira vez ainda naquele ano, em Sonoma. A expectativa é de que conseguisse encerrar a maldição da família, algo que não aconteceu em 20 participações.