Na terça-feira à tarde, o GRANDE PRÊMIO começou a receber algumas imagens do que acontecia no autódromo de Goiânia às vésperas da volta do GP do Brasil de MotoGP. As fotos, tiradas de uma ponte e de diferentes ângulos, indicavam um ponto do circuito inteiramente alagado pela tempestade do momento. A conversa na redação foi imediata: averiguar a veracidade, confiando nas fontes de que aquele retrato era real.

Já havia sido publicado, no Brasil e lá fora, o fato e as fotos. No fim da noite, o GRANDE PRÊMIO já tinha a confirmação de que eram verdadeiras. A organização, via assessoria, foi consultada, ratificou a informação e ressaltou o rápido escoamento daquele aguaceiro. A publicação da notícia neste site só aconteceu às 10h19 da quarta-feira com o título “Toró e alagamento afetam pista de Goiânia antes da MotoGP. GP do Brasil elogia drenagem”. As redes sociais trouxeram uma arte com a foto e o título usado na web.

Em termos jornalísticos, considero que a notícia foi publicada tardiamente, porém com o peso correto do que devidamente ocorreu. Mas não demorou muito para que em Instagram, X/Twitter, Facebook e YouTube jorrasse uma enxurrada maior que o alagamento de Goiânia gente denunciando a foto “feita por IA” e “fake” e outras tantas gentalhas, usando tal gancho, criticando o trabalho e a idoneidade do GRANDE PRÊMIO, até mesmo indicando que falta “positividade” e que seria necessário “apoiar a corrida”.

A tal vertente de que se tratava de IA foi claramente apoiada pelo site Motorsport.com Brasil, colocando-se no insípido papel de agência de checagem, com duas imagens lado a lado e tratando uma como “fake” e outra como “fato”. Importante dizer que versões internacionais da página haviam utilizado a foto que então foi definida como falsa. Igualmente importante, não houve por parte do concorrente nem dos valentes críticos digitais, ou de WhatsApp, a evidência clara de eventual manipulação.

Internamente, a redação do GP tratou de checar novamente todos os pontos, enquanto o time de fotografia e artes revalidou se qualquer uma das fotos tinha indício de ter sido alterada ou criada por inteligência artificial. A confirmação foi dada por todas as partes. Melhor ainda foi quando tiramos a dúvida com as próprias IAs: tanto Chat GPT quanto Gemini apontaram, com 95% de precisão, de que as imagens eram reais. O GRANDE PRÊMIO manteve, pois, tudo que havia publicado.

Ainda na quarta-feira, quatro profissionais do GRANDE PRÊMIO chegaram a Goiânia para a cobertura da MotoGP. Na quinta de manhã, já no autódromo, fotos foram tiradas dos mesmos pontos. Não havia mais alagamento algum, mas uma série de poças e muita sujeira. Publicadas nas redes sociais, as queixas e as críticas brotaram na mesma proporção de antes.

Ao longo daquele dia, com a presença de jornalistas internacionais no autódromo, a verdade começou a vir à tona. Simon Patterson, uma das referências notórias da MotoGP, soltou no Twitter: “Várias pessoas me disseram hoje que esta foto é absolutamente real e não foi feita por IA – e que afirmar o contrário pode ser apenas uma jogada de marketing…”. Rosario Triolo, outro insider da categoria, respondeu a Simon: “Cara, isso é real e foi postado por mim depois que recebi de um membro do paddock da MotoGP que tirou a foto… apesar dos relatos falsos @Motorsport_br.”

Ainda naquele dia, para deleite de muitos envolvidos, o circuito recebia a homologação da FIM (Federação Internacional de Motociclismo).

Na sexta-feira, os treinos tiveram um longo atraso em decorrência de sujeira e lama na pista após mais um temporal. Então veio o sábado, e com ele a vergonha maior: fez-se um buraco na reta principal. Organizadores, então, precisaram abrir uma valeta para resolver o problema, provocando um atraso inicial de quase três horas na programação. O buraco tapado virou uma lombada aparentemente de cimento.

A título de informação, o tipo de asfalto foi aprovado pelo Comitê de Homologação de Circuitos (CCR) da FIM. A responsabilidade pelo vexame, tratado por integrante da própria MotoGP para funcionários da Trackhouse como um “show de merda”, é tanto dos promotores – e nisso se inclui o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), bajulado por muitos e se refestelando enquanto a pista se desfazia – quanto da organização, que desconsideraram no dossiê entregue à federação os problemas que o excesso de chuva poderia causar no solo de um autódromo basicamente refeito às pressas para receber a MotoGP e suas categorias de base.

Temos, no fim das contas, um cenário muito amplo para divagações, a começar pelo fato de que o fim de semana em si da MotoGP em Goiânia comprova o que foi mostrado nas tais fotos: houve um trabalho hercúleo movido por alguns para deslegitimar imagens – e parece perceptível quem se permitiu propagar isso – e que acabou respingando no GRANDE PRÊMIO de muitas formas, a ponto de termos de falar sobre jornalismo, apuração e conduta. Pois que falemos.

Este momento da nossa existência na área de comunicação mescla profissionalismo – onde se insere o GRANDE PRÊMIO –, grupos de comunicação travestidos de assessoria de imprensa e relações públicas, criadores de conteúdo, influenciadores e antis. É de conhecimento de todos, por exemplo, que o GP foi descredenciado da cobertura de etapa de Belo Horizonte da Stock Car em 2024 por ter feito uma reportagem que falava sobre a batalha da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) contra a corrida. A categoria, sob o frívolo comando de Lincoln Bortoleto, ficou “indignada” – falei à época. Desde então, todos os pedidos de credenciamento feitos para qualquer uma das etapas foram vetados. Podemos supor que quem é credenciado jamais fez qualquer crítica ou relato que abale a cinderela do automobilismo brasileiro. É por isso que gente que nunca produziu uma reportagem na vida é aceita como imprensa – até mesmo molecada que deveria estar na escola se preparando para tal ou aproveitando a adolescência sem exercer trabalho infantil.

Então, quando se produz uma série de reportagens extensas sobre a falta de segurança dos carros, dúvidas sobre homologação de chassi, corridas que aconteceram sem comissários técnicos e outros claros problemas da Stock Car, com provas contundentes e documentadas, a patuleia se espanta. Outros veículos do nicho silenciaram. Tempo atrás, me mostraram que até quem passou pelo GRANDE PRÊMIO questionou o motivo da reportagem. Gente submersa que jamais fez qualquer apuração quando esteve por aqui questionando o motivo de se fazer jornalismo. Achei curioso e ri.

Fora da Stock Car, teve um caso, também em 2024, que remeteu ao furo do GRANDE PRÊMIO de que Gabriel Bortoleto havia assinado com a Sauber em sua chegada à F1. A notícia foi dada numa sexta-feira. O assessor do piloto – coincidentemente o mesmo que fazia assessoria para o grupo promotor da citada corrida de BH – fez postagens em redes sociais descascando nosso trabalho – eu, particularmente, havia apurado a informação –, disse que éramos um desserviço ao esporte, que era mentira, quase entrou com uma queixa-crime no cartório. A concorrência, no geral, não só desmentiu a informação como uma delas lançou um parco manifesto chamado “bom jornalismo vale ouro”. Três dias depois, veio a confirmação oficial da Sauber.

Ô, e como vale. E dá pra ver quem não vale.

Eventos da magnitude da MotoGP no Brasil, tal qual acontece com a Fórmula 1 em novembro, acabam por trazer à tona a razão desta gente se aventurar neste mundo: a egolatria pela presença nos eventos e pelo contato com os pilotos. É tudo para estar no autódromo, tirar selfies com os besties, fazer-se importante gerando conteúdo esteticamente trabalhado, mas ou tolo ou pouco profundo ou leviano ou totalmente chapa-branca. Porque traz milhares de visualizações, agrada marcas e, na ponta final, garante credenciais. Na outra ponta, forma uma grande massa desprovida de senso crítico – até há público que questiona o autor do conteúdo sobre temas mais incisivos, e enfim cai na realidade de não vai consumir nada e ouve a esnobada de que o produtor estará no ano que vem presente na corrida enquanto o espectador vai ver sentado no sofá. E aí, quando esta audiência lida com algo fora deste espectro, quando se traz uma mera foto real sobre um alagamento em uma pista de corrida, sobra ao GRANDE PRÊMIO a pecha de “torcedor contra”, “negativo”, e outras bobagens e infantilidades que levam à conclusão desta longa pensata.

Noticiar problemas graves de estrutura do autódromo de Goiânia na volta da MotoGP ao Brasil não provoca tesão a nenhum de nós. Há, pelo contrário, torcida para que haja tais corridas justamente porque nos geram oportunidades de mandar uma equipe in loco, como o GRANDE PRÊMIO está fazendo, oportunidades de negócios, oportunidade de ampliar a audiência, oportunidades de girar a roda. O GP do Brasil de MotoGP, tomara, veio para ficar, e que os terríveis erros deste ano sirvam para o evento vir melhor em 2027. Quantas vezes não se ouviram ameaças de tirar a F1 de Interlagos pela estrutura precária, ou até mesmo quando choveu naquele 2003 em que a pista virou um lago na Curva do Sol. Quem hoje é louco de tirar a F1 daqui? Já diria o filósofo: torcedores, calma!

Se talvez não tenha ficado evidente, embora haja diversão e entretenimento nas postagens das redes sociais, nos programas diários e nas narrações que temos feito há mais de três anos, a fundamentação do GRANDE PRÊMIO segue as bases do jornalismo sério, analítico e investigativo – e como gostaria de ter mais gente na equipe dedicada a apurar muitas coisas que ouvimos. Óbvio que corremos o risco de cair nas armadilhas de IA, da mesma forma que informações de fontes não confiáveis – caso meu de ter dado a notícia da morte de Tuka Rocha um dia antes da confirmação, algo inaceitável –, mas casos como estes nos fazem ter o trabalho e o retrabalho de apurar para não errar – e, quando errar, ter a hombridade de reconhecer.

Diferente do concorrente que causou tudo isso, que preferiu apagar sua checagem tirada de buracos similares ao da pista de Goiânia, sorrateiramente, sem deixar rastros nem explicações, desvelando sua linha editorial.

Cito aqui Pedro Henrique Marum, editor-chefe do GRANDE PRÊMIO, que disse no Twitter há pouco sobre os últimos dias em específico, mas que se estende ao cenário como um todo: “O peleguismo está tão enraizado que há quem não consiga concluir que a gente dizia que algo estava acontecendo porque algo estava, de fato, acontecendo”. A bem da verdade, toda esta situação que começou no alagamento de Goiânia mostrou o tamanho da lama em que estamos envolvidos. Não tem IA que altere.